Para Além da Figura de Bolsonaro: O Enraizamento Social do Bolsonarismo, Segundo Esther Solano

A cientista política Esther Solano apresenta uma análise perspicaz sobre a duradoura presença do bolsonarismo no cenário político brasileiro, argumentando que o movimento transcende a figura de seu líder. Sua tese central é que o bolsonarismo se consolidou por meio de transformações profundas nas percepções e valores de segmentos sociais que, tradicionalmente, gravitavam em torno da esquerda, indicando um fenômeno com raízes mais complexas e profundas do que se costuma admitir.

Desvendando as Camadas do Fenômeno: Além do Antipetismo

Contrariando interpretações simplistas, Solano enfatiza que o crescimento do bolsonarismo não pode ser inteiramente atribuído apenas ao sentimento antipetista ou à insatisfação genérica com o establishment político. Embora esses fatores tenham desempenhado um papel, a pesquisadora sugere que tais explicações são insuficientes para compreender a magnitude e a resiliência do movimento. É fundamental, segundo ela, ir além da polarização momentânea e buscar as motivações subjacentes que atraíram milhões de brasileiros a essa vertente ideológica.

A ascensão da direita nos últimos anos, portanto, seria um reflexo de mudanças estruturais na forma como os cidadãos interpretam a política, a economia e a sociedade. Essa guinada estaria ligada a uma reconfiguração de identidades e prioridades, que ressoa com pautas conservadoras e autoritárias, independentemente das críticas pontuais a partidos ou figuras específicas.

A Reconfiguração dos Apoios: Novas Bases Societais

Um dos pontos mais reveladores da análise de Solano reside na identificação dos grupos que impulsionaram o bolsonarismo. Ela destaca a adesão significativa de segmentos que, no passado, eram considerados baluartes da esquerda progressista. Jovens, mulheres e trabalhadores de baixa renda, que historicamente se alinhavam a projetos políticos de cunho social-democrata ou socialista, agora se mostram receptivos – ou até mesmo apoiadores – da pauta bolsonarista.

Essa mudança de lealdade não é trivial. Ela sugere que as propostas e o discurso bolsonarista conseguiram dialogar com anseios e frustrações desses grupos, oferecendo respostas, ainda que por vezes simplistas, a problemas complexos. Talvez seja a busca por segurança, a defesa de valores tradicionais ou a promessa de uma nova ordem que os tenha afastado de suas filiações políticas anteriores, reconfigurando o mapa eleitoral de forma imprevisível e duradoura.

O Legado Duradouro e os Desafios para o Futuro Político

A perspectiva apresentada por Esther Solano aponta para um cenário em que o bolsonarismo, enquanto fenômeno ideológico e social, persistirá no Brasil mesmo na ausência de Jair Bolsonaro como figura central ou líder político ativo. As transformações nos valores e percepções, que ela identifica em diversos estratos da sociedade, criaram um terreno fértil para que suas ideias continuem a ser propagadas e a encontrar eco em parcelas consideráveis da população.

Compreender essa resiliência é crucial para as forças políticas que buscam confrontar ou dialogar com essa corrente. O desafio não está apenas em superar um indivíduo, mas em endereçar as bases sociais e as motivações profundas que sustentam esse ideário. A análise de Solano serve como um alerta para a necessidade de um estudo mais aprofundado e de estratégias políticas que levem em conta a complexidade e a profundidade dessas mudanças na sociedade brasileira.

Fonte: https://redir.folha.com.br

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