No dia 3 de julho de 1876, a cidade suíça de Berna testemunhava um funeral peculiar. Coveiros de um cemitério local, alheios à dimensão histórica do homem que enterravam, faziam gracejos sobre a grandiosidade do caixão e a profundidade necessária para sepultá-lo. Ali repousava Mikhail Bakunin, falecido dois dias antes, um gigante não apenas em sua compleição física, mas, sobretudo, na estatura intelectual e revolucionária que legou à posteridade. Às vésperas de completar 150 anos de sua partida, o pensamento de Bakunin e a corrente anarquista que ele ajudou a moldar persistem, encontrando no Brasil um eco, ainda que discreto, mas inegável.
Mikhail Bakunin: A Força Propulsora do Anarquismo Clássico
Nascido em 1814 na Rússia, Bakunin foi um dos mais proeminentes teóricos e ativistas do anarquismo. Sua vida foi uma saga de exílios, prisões e intensa atividade revolucionária por toda a Europa. Discípulo de Hegel e Feurbach, sua trajetória o levou a romper com figuras como Karl Marx, divergindo fundamentalmente sobre o papel do Estado e a transição para uma sociedade sem classes. Para Bakunin, o Estado, em qualquer de suas formas, seria um instrumento de opressão e exploração, devendo ser destruído para que a liberdade individual e coletiva pudesse florescer. Sua visão de uma sociedade organizada por federações livres de associações autônomas, sem coerção hierárquica, tornou-se um pilar do anarquismo clássico.
Os Fundamentos da Ideia Libertária
A filosofia anarquista, frequentemente mal compreendida como sinônimo de caos, é, na verdade, uma proposta de ordem social sem autoridade. Baseia-se em princípios como a autonomia individual, a ajuda mútua, a autogestão e a descentralização. Bakunin defendia a abolição de todas as formas de dominação – política, econômica e social – e a construção de uma sociedade baseada na livre associação e na solidariedade. Ele via a revolução social como um processo espontâneo e de baixo para cima, impulsionado pelas massas oprimidas, e não por uma vanguarda partidária. Seu anticapitalismo e anti-estatismo radical permanecem como eixos centrais para diversas correntes anarquistas contemporâneas.
A Perenidade do Legado Bakuninista no Século XXI
Mesmo após um século e meio, a crítica de Bakunin à autoridade e sua defesa da liberdade radical continuam a ressoar. Seus escritos influenciaram não apenas o anarco-sindicalismo e o anarco-comunismo, mas também movimentos sociais e políticos em diversas partes do mundo. A persistência de problemas como a desigualdade, a opressão estatal e a exploração capitalista mantém acesa a chama das ideias libertárias. Em um contexto de globalização e ascensão de novas formas de controle, a busca por autogestão e horizontalidade, tão cara a Bakunin, adquire novas roupagens e contextos, desafiando as estruturas de poder estabelecidas e inspirando a resistência.
Anarquismo no Brasil: Uma História de Resistência e Ressonância Tímida
No Brasil, o anarquismo teve um papel significativo no início do século XX, especialmente entre os trabalhadores imigrantes europeus. Suas ideias impulsionaram greves, formaram sindicatos e organizaram os primeiros movimentos operários no país. Figuras como Edgar Leuenroth e Neno Vasco foram importantes divulgadores das teses libertárias, influenciando a imprensa operária e a organização de associações de classe. No entanto, as sucessivas ditaduras e a repressão política do Estado brasileiro, somadas à ascensão de outras ideologias, levaram a um refluxo da sua presença mais explícita no cenário político.
Atualmente, o anarquismo no Brasil pode ser descrito como um movimento de atuação mais discreta, mas ainda presente e relevante em nichos específicos. Ele se manifesta em coletivos culturais, movimentos estudantis, ativismo ambiental, ocupações urbanas e em correntes de pensamento que questionam a lógica do Estado e do capitalismo. Longe dos grandes palcos da política institucional, a ressonância das ideias de Bakunin e de outros pensadores anarquistas se faz sentir na defesa da horizontalidade, na autogestão de projetos e na busca por alternativas comunitárias e não-hierárquicas. Embora 'tímido' em sua visibilidade geral, ele persiste como uma voz crítica e um motor para a construção de outras realidades sociais.
Conclusão: O Eterno Desafio à Autoridade
Os 150 anos da morte de Mikhail Bakunin oferecem uma oportunidade para revisitar um legado que, apesar das intempéries históricas, continua a inspirar. Sua vida dedicada à luta contra a opressão e sua visão de uma sociedade livre de coerções ressoam em movimentos e indivíduos que, no Brasil e em todo o mundo, ainda buscam alternativas aos sistemas dominantes. O anarquismo pode não ser a força política hegemônica, mas a sua persistência demonstra a inextinguível necessidade humana de questionar a autoridade e de imaginar um futuro onde a liberdade e a justiça social possam, finalmente, caminhar lado a lado, sem as amarras do Estado ou do capital.
Fonte: https://redir.folha.com.br



