O cenário do futebol paraense tem sido marcado, nas últimas temporadas, por um notável aumento no número de jogadores estrangeiros, especialmente nos clubes de maior expressão, Remo e Paysandu. Essa tendência gerou um intenso debate sobre sua eficácia e os custos envolvidos, com especialistas ponderando sobre os resultados obtidos em campo e o impacto financeiro das investidas. A estratégia, que contrasta com padrões de anos anteriores, reflete uma busca por talentos fora do mercado nacional, mas também expõe desafios de adaptação e as limitações estruturais dos próprios clubes.
A Ascensão dos Atletas de Outras Nacionalidades em Remo e Paysandu
A presença de jogadores estrangeiros no futebol paraense tem crescido exponencialmente. Em 2024, o Remo não contava com nenhum atleta de fora do país, mas em 2025 esse número subiu para oito, atingindo a marca de 12 em 2026. No Paysandu, a curva também foi ascendente, passando de seis estrangeiros em 2024 para nove em 2025, embora tenha diminuído para quatro em 2026. Este movimento, conforme observa Carlos Ferreira, jornalista, comentarista e colunista do Grupo O Liberal, deve ser visto dentro de uma conjuntura de mercado mais ampla, que transcende a mera nacionalidade dos atletas.
Resultados Variados: Sucessos Pontuais e Apostas Arriscadas
A experiência com atletas estrangeiros nos clubes paraenses apresenta um misto de resultados, com poucos destaques e muitas decepções. A análise de Carlos Ferreira ressalta que, embora alguns nomes tenham se sobressaído, a maioria não correspondeu às expectativas. No Paysandu, a temporada de 2024 teve o venezuelano Esli Garcia como um exemplo de sucesso, com 14 gols em 45 jogos. O argentino Benjamín Borasi também foi citado. Contudo, 2025 foi um ano de aposta “ousada” e “arriscada” para o Papão, que resultou em um desempenho “muito ruim”, segundo declarações do então presidente Roger Aguilera.
Já no Remo, que nunca teve tantos estrangeiros como em 2026, os exemplos positivos são mais escassos. O português João Pedro foi considerado importante em 2025, e o camaronês Tchamba, que chegou, treinou poucos dias e logo se tornou uma peça fundamental em 2026, é um dos raros casos de rápida adaptação e impacto imediato. O meio-campista Lionel Picco é visto como um nome de desempenho intermediário. No entanto, a lista de atletas que não renderam o esperado é significativamente maior, incluindo Diego Hernández, que teve momentos pontuais, mas no geral, não se firmou.
Desafios de Adaptação e o Fator Cobrança
A dificuldade de adaptação é um dos principais fatores apontados para o desempenho aquém do esperado, mas, segundo Ferreira, essa questão não é exclusiva dos estrangeiros. Jogadores vindos de outras regiões do Brasil também enfrentam obstáculos, como a peculiaridade do clima de Belém e, principalmente, a intensa cobrança da torcida e da imprensa. O comentarista enfatiza que o aproveitamento geral dos atletas, sejam eles nacionais ou internacionais, está em uma média similar, indicando um problema mais sistêmico do que meramente ligado à origem. A rápida integração de Tchamba, por exemplo, demonstra que a adaptação é relativa e depende de múltiplos fatores.
Impacto Financeiro e Limitações Estruturais do Futebol Local
O debate sobre jogadores estrangeiros também se estende ao impacto financeiro dos clubes. Ferreira critica o que considera um “excesso absurdo” de contratações, sejam elas de atletas nacionais ou internacionais, o que muitas vezes leva os clubes a “rasgar dinheiro”. Embora resultados pontuais, como vitórias significativas contra adversários de peso, encorajem novas investidas, eles não disfarçam o risco inerente a essas estratégias.
A raiz do problema, contudo, pode estar nas limitações estruturais do próprio futebol paraense. A dificuldade em contratar bons jogadores no mercado nacional, que já conhecem a realidade de cobrança e uma infraestrutura ainda não ideal, leva os clubes a buscarem alternativas. Atletas estrangeiros, por vezes com menos informações sobre o contexto local, veem o mercado brasileiro como uma grande oportunidade, o que confere aos clubes paraenses uma condição mais favorável para atrair talentos do exterior, apesar das condições de trabalho não serem as ideais, conforme pontuado por Ferreira. Os clubes, embora próximos de um salto de qualidade, ainda não oferecem o nível estrutural que almejam, tornando a busca por talentos de fora uma estratégia viável, mas incerta.
Conclusão: Uma Estratégia Complexa com Olhos no Futuro
A crescente presença de jogadores estrangeiros no futebol paraense, especialmente em Remo e Paysandu, é um reflexo das dinâmicas do mercado e das aspirações dos clubes. Embora essa estratégia traga consigo riscos financeiros e desafios significativos de adaptação, ela também se apresenta como uma alternativa para superar as dificuldades de atrair talentos nacionais em um cenário de infraestrutura ainda em desenvolvimento. O sucesso pontual de alguns atletas estrangeiros mantém acesa a chama da esperança, mas a complexidade do tema exige uma análise contínua e um planejamento cuidadoso para que as apostas não se transformem em meros custos, mas sim em investimentos estratégicos para o futuro do futebol no Pará.
Fonte: https://www.oliberal.com



