O Santos Futebol Clube oficializou a chegada de Cuca como seu novo técnico nesta sexta-feira, em coletiva de imprensa realizada no CT Rei Pelé. No entanto, a apresentação do treinador de 62 anos foi marcada não apenas pelos planos para a equipe, mas também por um tópico sensível: a abordagem do caso ocorrido em 1987, na Suíça, onde Cuca, então jogador do Grêmio, foi condenado por estupro de uma menor de 13 anos, e cuja pena foi anulada apenas em 2024. O técnico utilizou o momento para esclarecer sua posição e detalhar os recentes desdobramentos legais e pessoais relacionados ao episódio.
O Reencontro com o Santos e a Necessidade de Explicações
Durante sua fala, Cuca detalhou a evolução de sua percepção sobre o episódio. Ele admitiu que, por décadas, não deu a devida importância ao tema, afirmando desconhecer o processo judicial à época e que o assunto permaneceu “apagado” por mais de 30 anos. O treinador relembrou a intensa repercussão negativa que sua breve passagem pelo Corinthians em 2023 gerou, episódio que o impulsionou a buscar a resolução legal do caso no exterior. Após reunir-se com sua família, ele contratou advogados e, embora o mérito do caso não tenha sido reavaliado, conseguiu a anulação da pena e o pagamento de uma indenização, o que ele descreveu como um resgate de sua dignidade pessoal, um processo que o “machucou bastante”.
O 'Escândalo de Berna': Detalhes do Caso de 1987 e a Anulação da Sentença
Em 1987, durante uma excursão do Grêmio à Europa, Alex Stival, conhecido como Cuca, juntamente com os atletas Henrique Arlindo Etges, Eduardo Hamester e Fernando Castoldi, foi detido na Suíça. Eles foram acusados de manter relações sexuais não consensuais com uma jovem de 13 anos em um hotel em Berna, incidente que ficou conhecido como o “Escândalo de Berna”. A vítima teria ido ao quarto dos jogadores em busca de autógrafos quando o abuso ocorreu. A Justiça suíça condenou Cuca e os outros envolvidos. Contudo, ao retornarem ao Brasil, a pena nunca foi cumprida e o crime prescreveu em 2004. Anos mais tarde, em 2023, após a controvérsia em sua contratação pelo Corinthians, Cuca buscou reverter a situação legal. Argumentando a falta de representação legal adequada no julgamento original, seus advogados conseguiram a anulação da sentença em 2024. Importante ressaltar que essa anulação não significou uma reavaliação do mérito do caso, mas sim uma decisão processual, e não poderá haver novo julgamento. Além disso, foi determinada uma indenização à vítima, inicialmente de 13 mil francos suíços, posteriormente ajustada para 9,5 mil francos suíços após o cumprimento de despesas.
Uma Nova Luta: O Compromisso de Cuca contra a Violência de Gênero
Cuca afirmou ter desenvolvido uma nova compreensão sobre a causa da violência contra a mulher, movido não apenas por sua experiência pessoal, mas pela necessidade de contribuir para a pauta social. Ele expressou que hoje entende que o público se preocupa mais com a causa do que com o indivíduo. O técnico revelou ter se afastado do futebol por um ano para focar na resolução jurídica do caso, investindo recursos significativos. Longe dos holofotes das redes sociais, ele disse estar ativamente envolvido em iniciativas de combate à violência de gênero. Cuca mencionou a realização de palestras, reuniões com clubes como Athletico, Coritiba e Paraná, abrangendo bases e equipes femininas para discutir o tema. Ele também promoveu e financiou cursos de arbitragem feminina, visando maior inclusão no esporte. Sua motivação, segundo ele, reside na alarmante estatística de cinco vítimas de feminicídio por dia no Brasil e os 20 milhões de mulheres que sofrem algum tipo de abuso globalmente, reforçando a responsabilidade dos homens em combater essa realidade.
Com a apresentação concluída e os esclarecimentos sobre seu passado feitos, Cuca agora se prepara para sua estreia à frente do Santos. A partida está marcada para o próximo domingo, 22, às 16h (de Brasília), contra o Atlético-MG, no Mineirão, pela oitava rodada do Campeonato Brasileiro. O desafio do treinador será não apenas conduzir a equipe em campo, mas também manter o compromisso público de engajamento social que ele manifestou, em um cenário onde sua imagem e suas ações estarão sob constante escrutínio.
Fonte: https://www.oliberal.com



